Brasil dispõe de centro de testes em carros elétricos e híbridos que imitam instalações de garagens com carregadores elétricos, carros e outros equipamentos para trabalhar na mitigação de incêndios e explosões
Walberto Maciel–Editor do Portal
Ao contrário do que muita gente pensa, o risco de incêndio e ou explosão de um carro híbrido ou elétrico é pelo menos 60 vezes menor do que em carros à combustão que possuem tanques de gasolina, etanol ou diesel. As montadoras não gostam muito do tema, principalmente para evitar o condicionamento de alguns acidentes à determinada marca, mas as assessorias de imprensa garantem que os acidentes registrados no Brasil, geralmente são por mal uso dos equipamentos de carga ou erro nas instalações. Para evitar estes problemas, as concessionárias orientam os consumidores consultarem o corpo de bombeiros e as prefeituras que normalmente tem legislação específicas para instalação de carregadores “All box” em garagens coletivas e individuais que devem sempre ser realizadas por profissionais qualificados. Nesta matéria entrevistamos Clemente Gauer – diretor da pasta de segurança e membro do conselho da ABVE – Associação Brasileira de Veículos Elétricos.

Clemente Gauer diretor de segurança da ABVE
A ABVE tem recebido muita comunicação de incêndio ou explosão de carros elétricos ou híbridos no Brasil?
Diferentemente dos veículos a combustão, os carros elétricos não dependem da queima e não transportam combustível líquido inflamável. Essa diferença se reflete nas estatísticas: embora os resultados variem conforme o país e a metodologia adotada, levantamentos internacionais indicam que os incêndios são muito menos frequentes em veículos elétricos.
Existem estudos que relatam a diferença entre os carros elétricos e à combustão?
Estudos internacionais apontam uma incidência aproximadamente 60 vezes menor do que nos veículos a combustão. Os incêndios envolvendo carros elétricos são raros, motivo pelo qual frequentemente ganham grande repercussão justamente por sua excepcionalidade. Criou-se uma percepção de risco desproporcional à frequência e severidade real desses episódios.

Incêndio no Estádio de Liverpool que teria começado no estacionamento
Por que existe um certo temor quando se fala dos carros elétricos de onde vem esse medo?
Dois dos maiores incêndios já registrados em estacionamentos ocorreram no aeroporto de Luton e nas proximidades da Liverpool Arena, ambos na Inglaterra. Iniciados e propagados por veículos à combustão, esses incêndios destruíram, juntos, quase 3 mil automóveis. As investigações destacaram fatores como a proximidade entre os veículos e a grande quantidade de materiais combustíveis presentes nos carros modernos, inclusive seus tanques de combustível.
Os carros elétricos atuais como estão nesse universo em termos de materiais propagadores de energia térmica?
90% dos veículos elétricos comercializados no Brasil utilizam baterias cuja química apresenta maior estabilidade térmica e menor propensão à fuga térmica do que outras tecnologias de íons de lítio do passado.
Você tem algum exemplo de algum acidente recente que demonstre este tipo de segurança?

Acidente com helicópteros no Rio de Janeiro em proporções menores demonstra a segurança dos carros atuais
O grave acidente ocorrido no Rio de Janeiro, no qual dois helicópteros caíram sobre um pátio de veículos elétricos, é emblemático. O impacto e o incêndio das aeronaves contendo combustível de aviação, atingiram cerca de 20 automóveis, mas não provocaram a destruição de todo o pátio. O episódio não demonstra que as baterias sejam imunes ao fogo, mas demonstrou que não houve uma reação em cadeia generalizada, muitas vezes associada, equivocadamente, aos veículos elétricos.
E as estações de recarga, como se colocam dentro dessa realidade?
Quanto à segurança das estações de recarga, o Brasil já dispõe de normas técnicas específicas e consolidadas. A ABNT NBR 17019 estabelece os requisitos para instalações destinadas à alimentação de veículos elétricos, enquanto a ABNT NBR 5410 reúne os requisitos gerais de segurança para instalações elétricas de baixa tensão. Quando o projeto é corretamente dimensionado, executado por profissional habilitado e equipado com aterramento e dispositivos adequados de proteção, a recarga é uma operação segura.
Onde os usuários podem buscar informações acerca da instalação dos carregadores, quando compram um carro elétrico ou híbrido?
Os Corpos de Bombeiros e os Conselhos Regionais de Engenharia, os CREAs, também disponibilizam orientações sobre projetos e instalações. É essencial, portanto, diferenciar uma estação de recarga tecnicamente instalada de improvisações como extensões, tomadas inadequadas ou circuitos sem proteção e dimensionamento apropriados.
E os próprios carros tem sistemas de proteção contra ações térmicas fora do normal?
Em acidentes graves, os sistemas de proteção do veículo podem retardar o início da fuga térmica e oferecer sinais prévios, como aquecimento e emissão de fumaça. Essa janela pode proporcionar mais tempo para a retirada dos ocupantes e a atuação das equipes de resgate. Em veículos a combustão, por outro lado, o vazamento e a ignição do combustível podem ocorrer imediatamente, dificultando o desencarceramento dos passageiros. Isso não significa que todos os acidentes terão o mesmo comportamento, mas demonstra que não há fundamento técnico para tratar o veículo elétrico como intrinsecamente mais perigoso.
Como seria a comparação entre o carro elétrico e o à combustão em geral sem levar em conta apenas o combustível e a bateria?
Em uma ampla série de testes em escala real, o Fire Safety Research Institute (FSRI), instituto especializado em segurança contra incêndios da UL Research Institutes, uma das mais respeitadas organizações independentes de ciência da segurança do mundo, concluiu que os incêndios em veículos elétricos apresentam, de modo geral, comportamento comparável ao dos veículos a combustão em aspectos como velocidade de propagação, pico de liberação de calor e duração. Isso ocorre porque grande parte da carga combustível de qualquer automóvel está nos materiais comuns aos dois tipos de veículo, como plásticos, espumas, pneus e revestimentos internos. Portanto, não existe fundamento técnico para considerar um veículo elétrico estacionado como uma ameaça térmica maior aos veículos ao seu redor. À luz das evidências disponíveis, estacionar ao lado de um elétrico pode ser considerado, no mínimo, tão ou até mais seguro quanto estacionar ao lado de um veículo que armazena gasolina, etanol ou diesel em um tanque, ou gás natural comprimido em cilindros.
Em que a ABVE contribui nestas pesquisas?
Nesse sentido, a ABVE, em parceria com o Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, a Ligabom, a Fundabom, o SindusCon-SP e o Secovi-SP, contribuiu para a implantação de um laboratório em escala real na Escola Superior de Bombeiros, em Franco da Rocha. O espaço reproduz as condições de uma garagem e permite realizar testes controlados com veículos elétricos, híbridos e a combustão, além de avaliar sistemas de sprinklers, detecção de fumaça, exaustão e diferentes procedimentos de combate.
Como a ABVE avalia essa questão do risco de incêndio dos elétricos e híbridos que vez ou outra surge quando se fala de mobilidade?
Toda forma de transporte envolve riscos. O caminho responsável não é alimentar receios, mas assegurar que bombeiros, resgates, engenheiros e instaladores estejam devidamente preparados para lidar com cada tecnologia.
E a legislação já atende a demanda e a realidade atual?
Hoje, o Estado de São Paulo conta com uma legislação que assegura aos paulistas o direito à recarga. De autoria dos deputados estaduais Antonio Donato e Marcelo Aguiar, a Lei nº 18.403/2026 garante ao condômino o direito de instalar uma estação de recarga individual em sua vaga de garagem, desde que sejam cumpridas as normas técnicas e de segurança vigentes.
No geral o que a legislação atural prevê?
Mais do que assegurar a conveniência de carregar o veículo em casa, a legislação estabelece critérios claros para que essa instalação seja formal, tecnicamente responsável e segura: exige conformidade com as normas da ABNT, compatibilidade com a instalação elétrica e execução por profissional habilitado, com emissão de ART ou RRT. Assim, o direito à recarga vem acompanhado da responsabilidade de garantir uma instalação adequada e segura.
O senhor falou de São Paulo e pelo Brasil como anda a legislação?
Esse movimento já ultrapassou São Paulo. Alagoas, Espírito Santo e Paraíba também possuem leis estaduais equivalentes, assegurando o direito à instalação de pontos individuais de recarga sob requisitos técnicos e de segurança. Em Alagoas, trata-se da Lei nº 9.733/2025; no Espírito Santo lei nº 12.857/2026 e na Paraíba, da Lei nº 14.303/2026.
Concluindo os carros híbridos e elétricos são mais seguros?
As evidências disponíveis mostraram que, quando comparado ao veículo a combustão, o veículo elétrico apresenta uma frequência substancialmente menor de incêndios. O debate sobre segurança deve, portanto, ser conduzido com base em dados, normas técnicas e testes científicos e não a partir da repercussão de episódios raros e excepcionais.
As imagens desta matéria são reproduções da internet
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