Desde 2017, quando um grupo dos primeiros compradores de carros elétricos no Brasil, se conheceram pelas redes sociais para tirar dúvidas, debaterem sobre a nova tecnologia e levar suas demandas para as montadoras, surgiu a ABRAVEI, uma associação que nesses nove anos vem lutando não só para garantir os direitos dos proprietários dos carros elétricos e híbridos plugin no País, mas para brigar por melhor infraestrutura de abastecimento e condições de eletrificação em condomínios e outras estruturas prediais que não estavam preparadas para este monte de novidades. Nesta entrevista, o presidente da ABRAVEI, Rogério Markiewicz esclarece tudo acerca da ABRAVEI e como ela pode ajudar os donos de carros elétricos e híbridos plugin…
Quando foi criada a ABRAVEI?
A Associação Brasileira dos Proprietários de Veículos Elétricos Inovadores foi fundada no dia 1º de maio de 2017 por um grupo formado pelos primeiros compradores de carros elétricos no Brasil.

Foto histórica da caravana de carros elétricos de São Paulo a Tresópolis (RJ) para a fundação da ABRAVEI

Rogério Markiewicz participando da expedição de carros elétricos: Brasília a Montevidéu
Qual é o principal objetivo da Associação?
A ABRAVEI nasceu com o objetivo de promover e fortalecer a mobilidade elétrica no Brasil, principalmente a partir da visão de quem efetivamente utiliza essa tecnologia no dia a dia.
A Associação surgiu da iniciativa de usuários pioneiros de veículos elétricos, numa época em que ainda havia pouquíssimos modelos disponíveis no Brasil, preços elevados e uma infraestrutura de recarga muito limitada.
Hoje, nossa atuação vai além da defesa do proprietário de veículo elétrico. Trabalhamos na disseminação de informações técnicas confiáveis, na conscientização da sociedade, no diálogo com o poder público e na defesa de políticas que estimulem a eletrificação dos transportes e a ampliação da infraestrutura de recarga.
Entendemos que mobilidade elétrica, eficiência energética e redução das emissões são elementos fundamentais para o desenvolvimento sustentável das cidades.
Como é formada a ABRAVEI?
A ABRAVEI é uma associação sem fins lucrativos formada exclusivamente por proprietários de veículos elétricos e híbridos plug-in, ou seja, veículos que podem ser conectados à rede elétrica para recarga.
Essa é uma característica importante da entidade: a Associação nasceu da iniciativa dos próprios usuários, muitos deles pioneiros na adoção dessas tecnologias no Brasil, que passaram a compartilhar experiências, dificuldades e soluções e perceberam a necessidade de uma representação organizada.
A atuação da ABRAVEI é conduzida por uma diretoria que trabalha de forma totalmente voluntária, reunindo proprietários comprometidos com o desenvolvimento e a consolidação da mobilidade elétrica no país.
Quem mantém ela funcionando?
A ABRAVEI é mantida principalmente pelas anuidades pagas por seus associados, que garantem os recursos necessários para o funcionamento e as atividades da entidade.
Mais recentemente, a Associação também vem ampliando sua atuação por meio de parcerias e convênios com entidades nacionais e internacionais ligadas à mobilidade elétrica e à sustentabilidade. Entre elas estão a ALAMOS (Associação Latino-americana de Mobilidade Sustentável), da qual a ABRAVEI é cofundadora, e a GEVA (Global EV Drivers Alliance), além de organizações não governamentais internacionais voltadas à proteção ambiental e à transição para uma mobilidade mais sustentável.
Essas parcerias também fortalecem o intercâmbio de experiências e boas práticas adotadas em outros países, contribuindo para o avanço da mobilidade elétrica no Brasil.
Quantos associados já tem?
Hoje, a ABRAVEI reúne várias centenas de associados distribuídos por diferentes regiões do Brasil, o que nos proporciona uma visão bastante ampla das diferentes realidades e demandas da mobilidade elétrica no país.
Mas a representatividade da Associação vai além do número de associados. Ao longo de sua atuação, a ABRAVEI construiu uma importante rede de relacionamento e interlocução com órgãos governamentais, empresas e fabricantes do setor, além de entidades nacionais e internacionais ligadas à mobilidade elétrica e à sustentabilidade.
Essa atuação permite que a experiência e as demandas dos proprietários de veículos elétricos e híbridos plug-in tenham voz nas discussões sobre infraestrutura, regulamentação, políticas públicas e desenvolvimento da mobilidade elétrica no Brasil.
Presumo que o objetivo é defender o usuário de carro elétrico em suas demandas. Tem ocorrido muitas reclamações?
A defesa do usuário é uma parte importante da nossa atuação, mas não é a única.
Recebemos relatos e demandas relacionadas a diferentes questões, desde infraestrutura e disponibilidade de pontos de recarga até dúvidas técnicas, condomínios, instalações elétricas e experiências com veículos e serviços.
Ao mesmo tempo, procuramos identificar problemas que não sejam apenas individuais, mas que revelem questões mais amplas do mercado. Quando percebemos que determinada dificuldade pode atingir muitos usuários, buscamos levar o assunto para discussão com empresas, órgãos públicos ou outros agentes envolvidos.
Nosso objetivo não é simplesmente receber reclamações, mas contribuir para encontrar soluções e ajudar o mercado a amadurecer.
Como o associado encaminha uma demanda para vocês?
O associado pode entrar em contato com a ABRAVEI por meio de site, e-mail, WhatsApp, redes sociais etc. Estamos sempre disponíveis.
A partir daí, avaliamos a questão e verificamos de que maneira a Associação pode contribuir, seja prestando uma orientação, compartilhando informação técnica ou fazendo a interlocução com empresas e órgãos públicos quando se trata de uma questão de interesse coletivo.
Tem algum custo para o associado?
O valor da contribuição de anuidade é de R$362,00 (á vista) ou R$381,60 (x6 vezes) pelo repasse do valor de boleto.
Teve algum caso recente que você possa nos contar?
Atualmente, uma das demandas mais frequentes que recebemos está relacionada à instalação de carregadores em condomínios residenciais. Com o crescimento da frota de veículos elétricos e híbridos plug-in, aumentou significativamente o número de moradores que precisam instalar pontos de recarga em suas vagas, trazendo discussões sobre capacidade elétrica das edificações, segurança, critérios técnicos e regras condominiais.
Nesse sentido, a ABRAVEI tem desenvolvido um trabalho de informação e orientação, inclusive com a realização de palestras para síndicos, administradoras de condomínios e empresas que atuam na instalação de infraestrutura de recarga, buscando disseminar boas práticas e informações técnicas confiáveis.
Outro tema que acompanhamos de perto é a elaboração e implementação das normas e orientações técnicas dos Corpos de Bombeiros estaduais para a recarga de veículos elétricos em edificações. A ABRAVEI vem participando desses debates em conjunto com entidades representativas dos setores da construção, engenharia e arquitetura, como SINDUSCON, CREA e CAU, buscando contribuir para que as novas exigências conciliem segurança, viabilidade técnica e o desenvolvimento da mobilidade elétrica.
Esse trabalho é importante porque a eletrificação não se limita ao veículo. Ela envolve toda uma cadeia de infraestrutura, edificações, condomínios, segurança, energia e planejamento urbano, e a ABRAVEI procura atuar como uma ponte entre usuários, profissionais, empresas, entidades técnicas e poder público.
Como vocês estão acompanhando o crescimento nas vendas dos carros elétricos no Brasil?
Acompanhamos com bastante atenção e vemos esse crescimento como uma confirmação de algo que defendemos há anos: a mobilidade elétrica deixou de ser uma possibilidade distante e passou a fazer parte efetivamente do mercado brasileiro.
O aumento das vendas traz benefícios, como maior variedade de veículos, mais concorrência e maior interesse em infraestrutura de recarga. Por outro lado, também aumenta a responsabilidade de preparar nossas cidades para essa nova realidade.
Não adianta apenas aumentar o número de veículos elétricos nas ruas. Precisamos pensar simultaneamente em infraestrutura de recarga, geração e distribuição de energia, condomínios, estacionamentos, rodovias e planejamento urbano.
A associação abrange híbridos também?
Sim, desde que sejam híbridos plug-in, ou seja, veículos que permitem recarga pela rede elétrica e que podem realizar parte dos deslocamentos utilizando efetivamente a propulsão elétrica.
A ABRAVEI entende que, pelas dimensões continentais do Brasil e pela grande diversidade de realidades urbanas, regionais e de infraestrutura, a transição para uma mobilidade mais sustentável não deve estar baseada em uma única solução tecnológica. Defendemos diferentes alternativas que contribuam efetivamente para o aumento da eficiência energética e para a redução das emissões.
Nesse contexto, consideramos os híbridos plug-in uma importante tecnologia de transição, especialmente em regiões onde a infraestrutura de recarga ainda está em desenvolvimento ou em situações que exigem maior autonomia.
Ao mesmo tempo, entendemos que existem diferenças importantes entre os veículos 100% elétricos e as diferentes tecnologias híbridas. Por isso, defendemos que políticas públicas e incentivos sejam estabelecidos com base em critérios objetivos, como eficiência energética, capacidade real de utilização em modo elétrico e redução efetiva das emissões de CO₂, estimulando uma evolução gradual em direção a uma mobilidade cada vez mais limpa e sustentável.
Se sim, tem mais demandas dos usuários de elétricos ou de híbridos?
Em relação à infraestrutura de recarga, as demandas dos usuários de veículos 100% elétricos e de híbridos plug-in são bastante semelhantes. Ambos dependem de acesso regular a pontos de recarga, seja em residências, condomínios, locais de trabalho ou na infraestrutura pública.
Inclusive, dependendo do perfil de utilização, o proprietário de um híbrido plug-in pode precisar recarregar o veículo com maior frequência ao longo da semana, justamente por possuir uma bateria menor e buscar aproveitar ao máximo a autonomia em modo elétrico. Por isso, no ambiente urbano, questões relacionadas à instalação, disponibilidade e acesso aos carregadores são praticamente as mesmas para os dois grupos.
Uma diferença importante aparece na manutenção. Enquanto o veículo 100% elétrico possui uma arquitetura mecânica mais simples, o híbrido plug-in combina dois sistemas de propulsão, elétrico e a combustão, o que aumenta a complexidade mecânica e as necessidades de manutenção.
Por isso, embora ambos façam parte do processo de eletrificação e compartilhem muitas das mesmas demandas de infraestrutura, existem particularidades importantes na experiência de uso e no pós-venda de cada tecnologia.
Os setores de pós-vendas desse monte de marcas espalhadas pelo Brasil são simpáticos à ABRAVEI?
Sim. A ABRAVEI mantém um excelente relacionamento com praticamente todas as marcas de veículos elétricos e híbridos plug-in comercializadas no Brasil, sempre preservando sua independência e seu papel de representação dos proprietários e usuários.
Ao longo dos anos, a Associação conquistou reconhecimento e respeito dentro do setor, mantendo canais de diálogo com fabricantes, importadores e suas áreas de pós-venda. Em diversas oportunidades, inclusive, a ABRAVEI é consultada por fabricantes antes do lançamento de novos modelos no mercado brasileiro, contribuindo com a perspectiva e a experiência prática de quem utiliza veículos eletrificados no dia a dia.
Esse relacionamento é muito importante porque o mercado está evoluindo rapidamente e o pós-venda precisa acompanhar não apenas o crescimento das vendas, mas também as particularidades dessas novas tecnologias.
Nossa postura é sempre construtiva: levamos às marcas as experiências, demandas e eventuais dificuldades relatadas pelos usuários e buscamos, por meio do diálogo, contribuir para o aprimoramento de produtos, serviços e atendimento. Ao mesmo tempo, mantemos a independência necessária para defender os interesses dos nossos associados e o desenvolvimento responsável da mobilidade elétrica no Brasil.
Qual é a marca que dá mais trabalho?
Nosso papel como Associação não é fazer um ranking de quem dá mais ou menos problemas, mas identificar questões que possam afetar os usuários e buscar soluções.
Todas as marcas que estão entrando ou crescendo no mercado brasileiro passam por um processo de adaptação. O que esperamos delas é transparência, disponibilidade de peças, capacitação técnica, bom atendimento de pós-venda e disposição para ouvir o consumidor.
Quando identificamos um problema relevante, procuramos conversar diretamente com os envolvidos.
Hoje o mercado de elétricos e híbridos está crescendo? E qual é a tendência?
Sem dúvida. O crescimento é muito significativo e a tendência é de continuidade da eletrificação da frota brasileira.
Estamos vendo mais fabricantes, mais modelos, diferentes faixas de preço e um consumidor muito mais informado e interessado nessa tecnologia.
O grande desafio agora é fazer com que a infraestrutura e as políticas públicas acompanhem esse crescimento.
Um exemplo interessante é o Distrito Federal. O DF foi pioneiro ao estabelecer, ainda no Código de Obras de 2018, a previsão de pontos de recarga em determinados estacionamentos e garagens privados de grande porte.
Acreditamos que esse tipo de planejamento precisa avançar. As edificações que estamos construindo hoje vão permanecer por décadas. Portanto, precisamos prepará-las agora para uma frota que será cada vez mais eletrificada.
Também defendemos iniciativas como ampliação da infraestrutura pública de recarga, corredores elétricos entre cidades e políticas tributárias que considerem a eficiência energética e a redução de emissões dos veículos.
Você tem informações de novas marcas que vão chegar ao Brasil?
O mercado brasileiro está extremamente dinâmico, e temos diversos fabricantes avaliando sua entrada ou ampliando sua presença no país. Nos próximos meses, veremos tanto marcas tradicionais, como a Cadillac e Lotus, finalmente desembarcando oficialmente no Brasil, quanto a chegada e expansão de diversas marcas asiáticas, ampliando ainda mais a oferta de veículos eletrificados ao consumidor brasileiro.
Para a ABRAVEI, entretanto, mais importante do que o número de novas marcas é como elas chegarão ao Brasil. Não basta oferecer bons produtos e tecnologia: é fundamental construir uma estrutura sólida de pós-venda, com disponibilidade de peças, assistência técnica qualificada, garantia adequada e compromisso de longo prazo com o mercado e com o consumidor brasileiro.
A maior concorrência é muito positiva, pois amplia as opções, estimula a evolução tecnológica e contribui para tornar os veículos eletrificados cada vez mais acessíveis. Mas, para que esse crescimento seja sustentável, o consumidor precisa ter segurança e confiança não apenas no momento da compra, mas durante toda a vida útil do veículo.

Rogério Markiewicz e Rodrigo Almeida, diretor e cofundador da ABRAVEI, representando a Associação na Câmara Federal
Estamos num período eleitoral. Em janeiro um novo presidente pode assumir ou o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Lula, se reelege. A ABRAVEI teme que a eleição de um governo que não faça negócios com a China e com outros países asiáticos possa atrapalhar os negócios que garantem o avanço no setor automotivo e tecnológico?
A mobilidade elétrica já deixou de ser uma tendência distante e passou a fazer parte do dia a dia do brasileiro. O consumidor está conhecendo e adotando essa tecnologia não apenas pela questão ambiental, mas também pelo conforto, eficiência, tecnologia embarcada e, principalmente, pelo menor custo de utilização.
Por isso, acreditamos que uma mudança de governo, por si só, dificilmente interromperia esse processo. A eletrificação é um movimento global e o mercado brasileiro já alcançou um estágio em que essa transformação tende a continuar, independentemente do cenário político.
Naturalmente, precisamos estar atentos às políticas públicas e às decisões que possam acelerar ou dificultar essa transição. Existem diferentes interesses econômicos envolvidos.
A posição da ABRAVEI é que o Brasil deve manter um ambiente aberto à inovação, à concorrência e ao desenvolvimento tecnológico, preservando boas relações comerciais não apenas com a China, mas com todos os países que possam contribuir para o desenvolvimento da mobilidade sustentável no Brasil.
Mais do que discutir a origem de uma determinada tecnologia ou fabricante, entendemos que o foco deve estar nos benefícios para o país e para o consumidor brasileiro: mais eficiência, menor custo de utilização, redução das emissões e acesso às melhores tecnologias disponíveis no mundo
O senhor gostaria de deixar uma mensagem para os usuários e para quem está pensando em comprar um carro elétrico ou híbrido Plugin?
Falamos de uma transformação – A mobilidade elétrica não deve ser vista simplesmente como a substituição de um automóvel a combustão por um automóvel elétrico.
Estamos falando de uma transformação muito maior, que envolve energia, tecnologia, infraestrutura, planejamento urbano e qualidade de vida.
A ABRAVEI acredita que a eletrificação dos transportes é um dos caminhos fundamentais para reduzir emissões, melhorar a eficiência energética e contribuir para cidades mais sustentáveis.
E queremos participar dessa transformação trazendo principalmente a perspectiva de quem está na ponta: o usuário que já vive a mobilidade elétrica no seu dia a dia.
Texto: Walberto Maciel Fotos: Divulgação ABRAVEI
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